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Plugar: Violência contra a mulher também se combate com educação

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É o que demonstram os trabalhos da juíza e da procuradora entrevistadas por Raquel Preto durante o debate ‘Combate à Violência Contra a Mulher’, realizado em São Paulo

 

* por Silvia Pereira Pelegrina

 

Como sua origem está muito ligada a comportamentos culturais, a violência contra a mulher é combatida também com muita educação e conscientização – à população em geral e aos agentes públicos que devem atender as vítimas, em particular. Foi o que ficou evidenciado por meio do trabalho das entrevistadas no primeiro talk show do debate “Combate à Violência Contra a Mulher”, realizado durante o lançamento do Programa Plugar, no último dia 27 de junho, que reuniu cerca de 500 mulheres no auditório Santander, em São Paulo.

A líder do Comitê de Combate à Violência Contra a Mulher do Grupo Mulheres do Brasil, Raquel Preto, foi quem entrevistou a procuradora de justiça Sílvia Chakian e a juíza Tatiane Moreira Lima, ambas com trabalhos voltados para o combate à violência doméstica.

Tatiane falou sobre sua atuação numa campanha coletiva, em todos os meios de transporte, contra o assédio sexual. Percebia, à época, que as mulheres sofriam abuso no transporte público, mas, por vergonha, faziam de conta que não estava acontecendo nada. “As pessoas em torno faziam de conta que não estavam vendo, e o agressor fazia de conta que não estava fazendo nada de errado. Quem se omite está do lado do agressor, porque está dizendo: ‘continua fazendo que não estou vendo nada’”, disparou a juíza, sob aplausos.

Quando a imprensa divulgou amplamente um caso de ejaculação em uma usuária do transporte urbano, foi feita uma campanha de conscientização dos funcionários das empresas que prestam o serviço. “Mais de 1.700 homens foram capacitados, além de policiais civis e militares. Criamos para eles protocolos de como atuar para atender mulheres vítimas dessas ocorrências”, contou. O resultado foi o registro de um número de denúncias maior do que o do ano anterior inteiro.

A mobilização social que se seguiu às denúncias e o destaque dado pela mídia levaram à sanção da lei de importunação sexual – o projeto estava parado há anos e só começou a “andar” quando as mulheres passaram a denunciar e a mídia a cobrir mais.

Questionada por Raquel sobre o que ela pediria aos poderes constituídos para mudar no atual cenário, Tatiane respondeu: “um equipamento para o agressor. A gente cuida muito da mulher, e é necessário. Só que, e o agressor? Se a gente não cuidar e não tiver um olhar para esse homem, ele vai fazer de novo”, concluiu.

Capacitação

A procuradora Sílvia Chakian explanou sobre seu projeto de capacitação de 6 mil funcionários públicos do Estado de São Paulo para identificar assédio sexual no ambiente do trabalho. Ela desconfiava dos números oficiais, que davam conta de que, por cinco anos, em universo com 340 mil mulheres e mais de 300 mil homens trabalhando, houve apenas duas ou três denúncias de assédio sexual – “todas com desfecho horrível para as mulheres”, pontuou.

Dentro da campanha “Trabalho Sem Assédio Sexual”, foram criados canais de denúncias, campanhas, cartilhas e cartazes. “Foi criado um fluxo [de atendimento] que fez aparecerem as mulheres, que passaram a ter coragem de dizer que são vítimas. Às vezes chegavam desconfiadas, mas é assim que começa o trabalho”, lembra.

Para a procuradora, é preciso pensar sobre as formas de violência menos visibilizadas, como o assédio no trabalho. “A violência contra a mulher ainda é muito subnotificada. O assédio ameaça sua subsistência. Quando alguém assedia alguém no ambiente de trabalho, significa que aquela vítima, se não ceder, pode perder o emprego, o sustento de sua família. É muito sórdido!”, disse.

À mesma questão que Raquel Preto lançou inicialmente sobre o que pediria aos poderes constituídos, Sílvia destacou: “não vejo como mudar esse contexto de extrema violência que vivemos hoje sem investir em educação. E quando falo em investir em educação é refletir sobre a dupla moral com que a gente ainda julga homens e mulheres. Esse julgamento moral que ainda se faz entre nós, mulheres, justifica o [modo de pensar masculino]: ‘se ela não for minha não será de mais ninguém’”.

A procuradora foi aplaudida quando declarou que a morte de uma mulher nesse contexto de violência doméstica acontece quando ela viola uma das leis do patriarcado, alimentadas por gerações. E, usando o exemplo da paisagista Elaine Caparroz, que daria seu depoimento em seguida, disparou: “é um paradoxo muito grande que as mesmas pessoas que se sensibilizam com a imagem de uma mulher espancada, na televisão, repudiem a inserção do debate de gênero nas escolas, nos planos estaduais e federais de educação. Então a gente precisa avançar para pensar nas raízes, na origem dessa violência, do porquê este homem golpeia por quatro horas essa mulher acreditando que ele pode”, afirma Sílvia Chakian.

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